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Nossas marcas




Não levamos nada deste mundo... Está certo. 
Mas podemos deixar muita coisa boa nele! 

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Fios do destino


O destino é mesmo assim, indiferente às nossas rotinas. Enquanto acordamos no horário e seguimos com os compromissos em busca dos resultados pretendidos, pequenos e grandes eventos aqui e acolá estão se combinando para influenciar o próximo instante da nossa vida. 

Ao olharmos para isso, percebemos que todos esses fios engendrados, alguns fornecidos por nós, outros urdidos à nossa revelia, parecem bordados por mãos invisíveis, de propósitos insondáveis, para compor no tecido do tempo um quadro que sequer imaginamos possível. 

E na trama dessas linhas se desenha a voz divina a dizer que toda e qualquer ansiedade é bobagem, a sussurrar compassivamente: “Aquietem o coração, pois saibam que eu sou Deus hoje e eternamente.” 

Baú de eternidades





O coração é baú de eternidades. O que sempre está conosco, estará para sempre conosco – sejam amarguras ou ternuras, amores ou rancores, infernos ou paraísos. Entre uma e outra dessas coisas, cabe tão-somente a nós a escolha. 

Areias do tempo






Pensar que um dia haveremos de morrer 
nada é em comparação ao risco de gastar em vão 
o breve tempo que dispomos para viver. 

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Dias de outono

 

O céu de outono na janela. Lá fora, a cena quintanesca: Seria uma borboleta amarela? Ou apenas uma folha seca? Desprendida, já tão velha... Flutua mansa, leve, serena...
 
Despede-se da vida com uma dignidade suprema. Dignidade que, nestes tempos, tem faltado a uma gente que não quer, nem sabe ao menos, envelhecer. Gente vazia, que em busca da artificialidade das aparências gasta seus dias. E, num casulo eterno, enquanto seu espírito definha, perde a chance de desenvolver a elegância da sabedoria.
 
A folha, entregue ao vento, voa no úmido e enevoado entardecer em delicados movimentos, até repousar nalgum canto do chão que há de fecundar. A alma, em harmonia com o tempo, move as asas da sua experiência, até cumprir a sua missão, deixar o legado do seu saber e, elegante borboleta, seguir a um fresco e novo amanhecer.
 
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Vita brevis



Um vento ligeiro, cuja música sibila em nossos ouvidos, o sopro agita os nossos cabelos, numa carícia desliza por nossa pele... E se vai.

A vida é de uma brevidade avassaladora!

É curta demais para ser desperdiçada com amarguras, contida por medos e culpas, sufocada em remorsos inconfessos... E tão cheia de possibilidades para terminar arrependida, pranteada sobre as sementes mortas de potenciais insatisfeitos.
 
A vida, também como o vento, só se expressa plenamente quando flui desimpedida.
 
Por isso, descomplique. Aceite as pessoas de bem como elas são. Arrisque. Se errar, corrija, peça perdão. Ame sem reservas e você conhecerá tudo que o amor lhe reserva. Trabalhe. Faça sempre o seu melhor. Não há recompensa maior do que sentir orgulho em cada gota do próprio suor. Priorize a ética. Porque todo gesto nosso repercute e gira em torno do mundo até nos achar de novo.
 
Ah! sim, nem se preocupe em encher os bolsos. Isso torna a carga pesada e o caminho doloroso. E mantenha a fé. Sempre mantenha a fé. Ela nos permite segurar a invisível mão que nos guia por este Universo de mistérios. Por fim, tenha compaixão. Simplesmente porque assim que se é gente, assim é que se alcança um coração sensível à vida em toda a sua intensidade.
 
Pois a sabedoria do tempo é singela como a sabedoria do vento. Quem a observa, caminha ciente de que está de passagem por este chão e depende da humildade para aprender a valorizar as coisas simples do dia a dia, por onde a vida flui com autêntica felicidade.

Ao fim da jornada





“Apesar de tantas provas, minha idade avançada e a grandeza de minha alma me levam a julgar que está tudo bem”, considera o rei Édipo, ao fim da tragédia escrita por Sófocles. 

Se ao final da jornada a experiência, toda experiência, sobretudo as provações, tiver conduzido a alma à grandeza, então perceberemos mais claramente que houve um propósito. E, uma vez satisfeito o propósito, estará tudo bem, apesar das desventuras próprias da aventura de viver.  

O descompasso da ansiedade

 
Tantas vezes eu caí em descompasso, perdi a sincronia com a vida, tangi tempos errados. Tantas vezes eu me vi preocupado com aquilo que ainda não havia acontecido, no afã inglório de obrigar as coisas a se encaixarem exatas nos arranjos dos meus desejos. E outras tantas eu sofri pós-ocupado com aquilo que já havia acontecido, na vã tentativa de resgatar coisas que se foram para mudá-las conforme os meus anseios. Cenas repassadas, em dezenas e dezenas de versões, sem jamais chegar à edição final, sem jamais retratar a vida real.
 
A ansiedade entorpece a alma com ilusões, seduz o coração para longe do tempo presente, faz a gente acreditar na possibilidade de alterar o que está fora do alcance das mãos. Ora no futuro, ora no passado, com menor ou maior intensidade, o ansioso sai do ritmo, embaralha a música da vida, cria sua própria cacofonia. E deixa de colher o doce fruto maduro, e de amar quem realmente merece, e perde a chance de desfrutar o instante, e de conhecer a grande sabedoria do agora.
 
Eu quero a plenitude de cada hora, quero reconhecer que tudo tem o seu tempo determinado, quero ter do passado a matéria-prima, o aprendizado, e do futuro, a inspiração, o sussurro encantado, para me entregar ao momento e dele tirar o acorde mais excitante. Quero compor uma obra de arte, tocar as cordas do presente como quem dedilha suavemente a pele cálida da pessoa amada. Porque, ao quedar as cortinas dos meus olhos, quando ressoar a última batida do meu coração, eu quero ouvir o derradeiro som com o prazer indizível de quem fez do conjunto da vida uma sinfonia, um trabalho único, nota a nota, dia a dia.
 

Tempo ao tempo

 

Lá pelo fim do século 19, algum homem sacou o relógio do bolso e, angustiado pelo tique-taque e o giro rápido do ponteiro dos segundos, deve ter considerado:
 
– Um dia hão de inventar um relógio sem ponteiros e sem barulho! Assim, este chato já não mais nos lembrará sem cessar da urgência da vida.
 
Hoje, quase sempre abolidos ou bem apequenados os segundos no mostrador, há silenciosos relógios digitais espalhados por todo canto. Eles nem se escondem nos bolsos, mas se agarram ao pulso das pessoas, reluzem nos aparelhos domésticos, nos veículos, em todo lugar que se vá.
 
Ah, o velho Cronos foi domesticado pela poderosa tecnologia. Feito bichinho, pode ser carregado para todo lado sem oferecer risco a ninguém. Cada vez que se mira o pobre tempo nos dígitos modernos, palitos rijos e brilhantes, ele se mostra obedientemente parado, convenientemente sem pressa, como se naquele instante estivesse congelado.
 
É... A sensação é de que o tempo já não corre. Quem corre somos nós. Medimos a nossa existência por metas, compromissos, compras e prestações a pagar. Sempre atrasados, sempre com alguma coisa a fazer ou conquistar, ficamos sem tempo para o tempo, e perdemos a consciência da sua ação sobre nós, dos limites que ele nos impõe, da brevidade da presença daqueles que amamos, da finitude dos nossos próprios dias.
 
E a gente se dá conta de que o tempo correu, e que deveria tê-lo aproveitado melhor, quando se surpreende com o final de um ano que ninguém viu passar, ou, pior, ao final de uma vida que escorreu ligeira e despercebida.
 
Ao refletir sobre isso, percebo o tiquetaquear do meu próprio coração, como se fosse uma delicada mas persistente oração, a pedir para Deus que me mantenha consciente de que a vida, a vida tem uma só urgência verdadeira: a urgência de ser vivida.
 

O tempo de cada um





O tempo do corpo da gente é o tempo das luas e estações. Ele avança num ritmo matemático, preciso, inalterável. Mas com o espírito é diferente. O espírito tem outros tempos, com cadências próprias, que se movem conforme a intensidade que a gente dedica à vida.