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Palavras ao vento

 
 
 
Palavras são sementes.
 
Lançadas ao vento, têm poder de germinar nas terras de cada coração onde se assentam.
 
Por isso, antes de reclamar daquilo que você colhe nos seus relacionamentos, avalie a qualidade dos grãos que você espalha.
 

Coragem de viver

 

A vida é feita de escolhas, costuma-se dizer. Eu discordo desse clichê. Acho que, a bem da verdade, a maioria das pessoas se deixa levar apenas pelas circunstâncias.
 
Aliás, na realidade, talvez o clichê tenha lá sua razão. Talvez a vida só se faça vida, mesmo, para quem não tem medo de tomá-la nas próprias mãos.
 
 

O descompasso da ansiedade

 
Tantas vezes eu caí em descompasso, perdi a sincronia com a vida, tangi tempos errados. Tantas vezes eu me vi preocupado com aquilo que ainda não havia acontecido, no afã inglório de obrigar as coisas a se encaixarem exatas nos arranjos dos meus desejos. E outras tantas eu sofri pós-ocupado com aquilo que já havia acontecido, na vã tentativa de resgatar coisas que se foram para mudá-las conforme os meus anseios. Cenas repassadas, em dezenas e dezenas de versões, sem jamais chegar à edição final, sem jamais retratar a vida real.
 
A ansiedade entorpece a alma com ilusões, seduz o coração para longe do tempo presente, faz a gente acreditar na possibilidade de alterar o que está fora do alcance das mãos. Ora no futuro, ora no passado, com menor ou maior intensidade, o ansioso sai do ritmo, embaralha a música da vida, cria sua própria cacofonia. E deixa de colher o doce fruto maduro, e de amar quem realmente merece, e perde a chance de desfrutar o instante, e de conhecer a grande sabedoria do agora.
 
Eu quero a plenitude de cada hora, quero reconhecer que tudo tem o seu tempo determinado, quero ter do passado a matéria-prima, o aprendizado, e do futuro, a inspiração, o sussurro encantado, para me entregar ao momento e dele tirar o acorde mais excitante. Quero compor uma obra de arte, tocar as cordas do presente como quem dedilha suavemente a pele cálida da pessoa amada. Porque, ao quedar as cortinas dos meus olhos, quando ressoar a última batida do meu coração, eu quero ouvir o derradeiro som com o prazer indizível de quem fez do conjunto da vida uma sinfonia, um trabalho único, nota a nota, dia a dia.
 

Agente ou reagente?

 

Na maioria das vezes, uma pessoa só pode nos fazer mal se permitirmos que ela nos afete. Quando a gente reage a uma provocação ou agressão, significa que se deixou atingir. E isso a ponto de processar seus efeitos e gerar uma resposta, inda que apenas íntima e silenciosa. Por outro lado, se a gente desenvolve maturidade para desprezar o mal, ele simplesmente permanece onde está – ou seja, na pessoa que o criou. E ali, somente ali, fará estragos.
 
Certa vez, li a narrativa de um homem que acompanhou um amigo, num domingo pela manhã, até a banca de jornal.
 
O jornaleiro, rude e mal-educado, chegou a ser ofensivo com seu péssimo atendimento. Mas o amigo dele manteve sua cordialidade natural e nem fez conta da grosseria. Enquanto iam embora, o homem não se conteve e questionou:
 
– Por que você foi tão amável com um sujeito tão estúpido?
 
A resposta saiu simples e serena:
 
– Porque eu não quero que alguém como ele determine como devo agir.
 
Quanto a nossa vida poderia avançar, se fossemos menos reagentes aos outros e mais, muito mais, agentes das nossas próprias escolhas?