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Incontida lágrima

O que há de mais importante a celebrar na vida é a própria vida, como São Francisco de Assis já dizia. 

Não se trata apenas de comemorar aquilo que aos nossos olhos dá certo, aquilo que acontece do jeito que a gente queria. 

É uma questão de se deixar tocar pela beleza e pelo mistério da existência, de perceber que entre as linhas onde se escreve a nossa história há propósitos insondáveis a tramar a aventura, de reconhecer que o bem e o mal são cúmplices nos desafios que nos provocam a florescer, como o são inverno e verão ao conspirar o enredo das estações. 

Chore, ria, abrace, afaste, lute, repouse, mas, acima de tudo, jamais permita que o teu coração endureça, jamais permita que ele se esqueça de contemplar a vida com a reverência devida, com a reverência que inspira, ao transbordar de uma incontida lágrima, profunda e infinita gratidão. 

Baú de eternidades





O coração é baú de eternidades. O que sempre está conosco, estará para sempre conosco – sejam amarguras ou ternuras, amores ou rancores, infernos ou paraísos. Entre uma e outra dessas coisas, cabe tão-somente a nós a escolha. 

Na bagagem do coração








No fim da nossa jornada sobre este chão,
quando precisarmos nos despir de tudo,
só poderemos carregar o que couber no coração.





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Troca de olhares

 
Essa tristeza que aponta no canto do teu sorriso, quando timidamente contemplas o mundo, nada mais é do que uma sombra de desesperança, projetada pelos horrores que percebes em tanta violência e injustiça.
 
Mas lança um olhar a teu próprio coração. Acharás nele amor e bondade, e uma capacidade inesgotável de perdão, abaixo de todas as camadas de dor e decepção. 
 
Essa é a tua essência. A mesma essência do que é feito tudo no mundo.
 
E assim como em ti encontraste beleza, olha de novo ao teu redor. Descobrirás que não estás só. Descobrirás outros olhares ansiosos por se deparar com essa beleza fundamental que a tudo permeia. 
 
Então, cada vez que um deles cruzar com o teu, o brilho do encontro há de revelar a verdadeira face da existência, por debaixo do seu manto de mistério, com um sorriso pleno e belo, a te observar. 
 
Nesse vislumbre sublime está a força para que se renove sempre a tua esperança.
 

Coração livre






Perdoar é coisa do coração, não da cabeça. A cabeça faz registro, arquiva na memória, cumpre o seu papel. Mas o coração acusa o golpe onde se abre ferida. Por isso, a decisão analítica de deixar para lá pouco importa. O que faz diferença, mesmo, é a vontade do coração de se tornar cada vez mais limpo, livre e libertador.

Cara e coração



Ouvi dizer que após se despedir de certo jornalista, a quem havia concedido entrevista, Abraham Lincoln comentou com a sua secretária:

– Não vou com a cara desse sujeito.

– Senhor presidente, ninguém é culpado pela cara que tem.

– Depois de grande, todo mundo se torna responsável pela cara que tem.

Tinha razão o Lincoln. De alguma forma acaba escapando, hora ou outra, nesta ou naquela expressão, numa ou noutra palavra, gesto ou ação, a genuína face de uma pessoa. E a verdade do ditado está no seu avesso, feito a máscara da hipocrisia, pois quem vê cara, se prestar atenção, também vê coração. 

Milagres do coração

 






Por causa dos religiosos mercadores, as pessoas de hoje, mais do que antes, atribuem à fé o conceito de mercadoria. Mais e melhor terá, quem mais e melhor pagar.
 
Mas de todos os tesouros do Universo, reflita, do que mais precisaria Deus de ti, para operar as suas maravilhas, senão um coração simples e aberto?
 

Onde nasce o amor

 
Foi difícil, admito, mas com o tempo eu aprendi que os amores verdadeiros, desses que correm nas veias da alma e do corpo da gente, feito riachos e rios rabiscados na carne da terra, a fecundá-la por suas fluentes, nascem todos de uma fonte única: o amor-próprio. 
 
Não à toa, Jesus ensina que o princípio, a nascente de toda virtude, onde cada pessoa encontra o seu valor genuíno, se resume no amor a Deus e ao próximo “como a si mesmo”. Afinal, que parâmetros alguém pode ter para amar qualquer outro ser, com generosidade e aceitação, quando resiste a abrir para si mesmo o próprio coração?

Faxina no coração

 


Perdão é faxina que se faz no coração. Porque a morada da alma da gente não é lugar para se guardar coisas quebradas pela passagem desastrada de alguém, ou imagens envelhecidas em retratos que só trazem aperto, muito menos preservar a pegada suja de algum sapato - que sequer mereceu andar num espaço tão sagrado.
 
Perdão é limpeza que se faz sem ressentimento. Porque é gesto de amor, amor-próprio, essencial à vida que vale a pena viver, e se desdobra àqueles que a gente deseja acolher no peito, e ao Deus que vem habitar onde a pureza ergue seu templo.
 
O coração assim, livre de entulho, puro, deixa de ser depósito de amarguras, canto escuro onde se esconde e sufoca o pranto, para se transformar em refúgio iluminado, de portas e janelas abertas, fonte de paz e entusiasmo.
 
Por isso, há muito desisti de ser do tipo que teima em acumular quinquilharias, com essas velhas e decrépitas manias de juntar estorvo. Quero sempre deixar espaço em mim para acolher tudo de bom que a vida tiver a oferecer – especialmente, o novo.
 
 

Solidão


Houve tempo em que pensei a solidão
como total ausência.
Não...
Com o tempo descobri na solidão
a oportunidade da presença,
a presença de mim mesmo,
mais completa, mais consciente,
mais plena...
Na conversa silenciosa e íntima,
o autoconhecimento,
o aprofundamento da autoestima,
as descobertas das possibilidades
de autorrealização – e felicidade.
Neste ambiente de solidão,
o corpo se faz altar,
a quietude, liturgia,
comunhão,
com o Sagrado a se manifestar.
Como o velho Erasmo bem sabia:
“Vocatus atque non vocatus, Deus aderit”
– Evocado ou não, Deus está presente.
Principalmente
quando o espaço se abre aconchegante
na solitude do coração.

No pomar do coração

 



Sentimento é reação do instinto. Pode brotar de mansinho ou explodir no coração, pode ser gostoso ou aflitivo, inspirar amor ou irritação... Inevitável reagir emotivamente às coisas que a gente vivencia.

O importante, mesmo, está em aprender a discernir qual sentimento se rega e qual se poda, porque isso determina o que a gente colhe...

Ou, inversamente, o que a gente arruína.

Ponto de orientação




O reino de Deus é uma fortaleza, contraponto seguro nesta jornada de constantes incertezas. Ele deve se erguer nas terras do coração, e ocupar o monte mais alto, no lugar, de todos, mais visível. Porque, assim, mesmo nos momentos de terrível escuridão, graças às suas luzes, este nosso espírito viajante, e até algum outro, de algum semelhante, sempre pode encontrar nele o seu ponto de orientação.