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Silêncio...




O silêncio... É preciso entulhar o silêncio, enterrá-lo em escombros, silenciá-lo a qualquer custo!

Nem que seja com música ruim, com risos falsificados pela bebida, com a televisão a tagarelar sozinha, com tanta preocupação sem-fim que se arruma por aí, com essas conversas intermináveis entre surdos nas quais se costuma tanto investir...

Mesmo assim, quando nos damos por conta, o susto! Ele aparece do nada e nos atormenta. Assombrado, esse miserável chama vozes do além, que sobem do fundo da nossa consciência e – que absurdo! – nos fazem pensar sobre nós mesmos!

Solidão


Houve tempo em que pensei a solidão
como total ausência.
Não...
Com o tempo descobri na solidão
a oportunidade da presença,
a presença de mim mesmo,
mais completa, mais consciente,
mais plena...
Na conversa silenciosa e íntima,
o autoconhecimento,
o aprofundamento da autoestima,
as descobertas das possibilidades
de autorrealização – e felicidade.
Neste ambiente de solidão,
o corpo se faz altar,
a quietude, liturgia,
comunhão,
com o Sagrado a se manifestar.
Como o velho Erasmo bem sabia:
“Vocatus atque non vocatus, Deus aderit”
– Evocado ou não, Deus está presente.
Principalmente
quando o espaço se abre aconchegante
na solitude do coração.

Honroso silêncio


Reclama, reclama, critica tudo e todos, malicia ações e intenções alheias, feito mosca com asa quebrada girando em torno de si, desprovida de qualquer importância senão o seu enjoativo zumbir.
 
Melhor se fosse abelha, com o seu jazz e coreografia da esperança, apontando o caminho das flores, dos perfumes e cores, das volúpias das formas e texturas, dos sabores adocicados nos campos transbordados de vida.
 
Ou, ao menos, mariposa, com seu ignoto, mas honroso, silêncio.