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Incontida lágrima

O que há de mais importante a celebrar na vida é a própria vida, como São Francisco de Assis já dizia. 

Não se trata apenas de comemorar aquilo que aos nossos olhos dá certo, aquilo que acontece do jeito que a gente queria. 

É uma questão de se deixar tocar pela beleza e pelo mistério da existência, de perceber que entre as linhas onde se escreve a nossa história há propósitos insondáveis a tramar a aventura, de reconhecer que o bem e o mal são cúmplices nos desafios que nos provocam a florescer, como o são inverno e verão ao conspirar o enredo das estações. 

Chore, ria, abrace, afaste, lute, repouse, mas, acima de tudo, jamais permita que o teu coração endureça, jamais permita que ele se esqueça de contemplar a vida com a reverência devida, com a reverência que inspira, ao transbordar de uma incontida lágrima, profunda e infinita gratidão. 

Equilíbrio

 
Nietzsche disse que a existência humana é uma corda estendida entre o primitivismo e a plenitude.
 
Também penso assim.
 
Somos equilibristas. Em nossa alma ressoa um chamado à travessia. A corda não se eleva muito acima do chão. Abaixo, há um lodaçal.
 
Alguns se conformam com a queda e, feito porcos, chafurdam, e ainda se recreiam na lama, e vivem como se nada mais houvesse de possibilidade. Tornados cínicos por sua descrença íntima e secreta, são estes os que vivem a se revolver em fofocas, deslealdades, falcatruas, até mesmo crimes e todo tipo de corrupção. Entretanto, por dentro, amargam a humilhação da sujeira e o desespero pela falta de perspectiva de seu próprio espírito.
 
Outros teimam em se reerguer cada vez que caem. Insistem no aprendizado do equilíbrio. Em momento algum se contentam em permanecer onde estão. Avançam. Pé ante pé. Mas avançam. Sentem que a vida só terá valor se puderem ir além.
 
Os que fazem a travessia são os que de fato transformam a realidade. O seu singelo espetáculo demonstra a grandeza humana. Revela do que somos capazes. E impressiona. A tal ponto que influencia mudanças. Estes tornam o mundo um lugar novo, para si e para todos. Um lugar que, de alguma forma, jamais será o mesmo após a sua passagem.
 

Ao fim da jornada





“Apesar de tantas provas, minha idade avançada e a grandeza de minha alma me levam a julgar que está tudo bem”, considera o rei Édipo, ao fim da tragédia escrita por Sófocles. 

Se ao final da jornada a experiência, toda experiência, sobretudo as provações, tiver conduzido a alma à grandeza, então perceberemos mais claramente que houve um propósito. E, uma vez satisfeito o propósito, estará tudo bem, apesar das desventuras próprias da aventura de viver.  

Propósitos




“Me corrói a angústia, noite e dia, pois não consigo entender qual propósito tinha Deus ao permitir que isso acontecesse comigo.”

Em resposta, o velho sábio puxou um sorriso no canto dos lábios para então devolver:

“Já lhe ocorreu que Deus esteja esperando que você dê um propósito ao que aconteceu?”