O valor de cada um

 

O abade se aproximou do noviço e tomou lugar ao seu lado no banco do jardim.
 
– Notei que você está enfrentando dificuldade para se relacionar com algumas pessoas.
 
– Acho que o senhor não observou direito.
 
O velho mestre se limitou a erguer uma das sobrancelhas.
 
– Algumas pessoas enfrentam dificuldade para se relacionar com quem tem opinião própria... E eu não vou mudar o meu jeito de ser por causa delas.
 
– Hum... Compreendo... Mas se você está tão seguro de si e das suas opiniões, por que precisa se impor dessa maneira?
 
E arrematou:
 
– A pessoa que faz de tudo para se impor, tentando a todo custo provar seu valor, é aquela que, por amargas experiências, lá no fundo, foi levada a duvidar dele.
 
O moço perdeu a fala. Uma mistura de sentimentos formou nó em sua garganta. Aquele homem havia ultrapassado facilmente as suas barreiras para, com ternura incomum, tocar em seu íntimo.
 
– Ser autêntico – prosseguiu o mestre –, num mundo onde todos tentam se ajustar a padronizações, é uma das maiores e mais importantes realizações humanas. Neste ponto eu concordo com você. Entretanto, autenticidade exige humildade, humildade para admitir que o próprio ser não está pronto e, em resposta, passar a construí-lo diante dos olhos das pessoas, com todos os erros e acertos que isso implica.
O abade fez uma pausa, seu olhar se distanciou, como se deixasse de enxergar as coisas ao redor para contemplar suas memórias.
 
– Sabe, filho, eu descobri que é nesse processo que a gente aprende a se amar, porque descobre qualidades valiosas em si mesmo. Daí, já não precisa provar coisa alguma a ninguém, nem lutar por aceitação, pois o nosso valor se expressa com naturalidade. 
 
Então, tornou a olhar nos olhos do noviço e concluiu:
 
– Ao reconhecer e aprimorar as nossas qualidades pessoais, a gente se dá valor de verdade. E quanto mais valor a gente se dá, mais valor a gente tem.
 
 

Tempo ao tempo

 

Lá pelo fim do século 19, algum homem sacou o relógio do bolso e, angustiado pelo tique-taque e o giro rápido do ponteiro dos segundos, deve ter considerado:
 
– Um dia hão de inventar um relógio sem ponteiros e sem barulho! Assim, este chato já não mais nos lembrará sem cessar da urgência da vida.
 
Hoje, quase sempre abolidos ou bem apequenados os segundos no mostrador, há silenciosos relógios digitais espalhados por todo canto. Eles nem se escondem nos bolsos, mas se agarram ao pulso das pessoas, reluzem nos aparelhos domésticos, nos veículos, em todo lugar que se vá.
 
Ah, o velho Cronos foi domesticado pela poderosa tecnologia. Feito bichinho, pode ser carregado para todo lado sem oferecer risco a ninguém. Cada vez que se mira o pobre tempo nos dígitos modernos, palitos rijos e brilhantes, ele se mostra obedientemente parado, convenientemente sem pressa, como se naquele instante estivesse congelado.
 
É... A sensação é de que o tempo já não corre. Quem corre somos nós. Medimos a nossa existência por metas, compromissos, compras e prestações a pagar. Sempre atrasados, sempre com alguma coisa a fazer ou conquistar, ficamos sem tempo para o tempo, e perdemos a consciência da sua ação sobre nós, dos limites que ele nos impõe, da brevidade da presença daqueles que amamos, da finitude dos nossos próprios dias.
 
E a gente se dá conta de que o tempo correu, e que deveria tê-lo aproveitado melhor, quando se surpreende com o final de um ano que ninguém viu passar, ou, pior, ao final de uma vida que escorreu ligeira e despercebida.
 
Ao refletir sobre isso, percebo o tiquetaquear do meu próprio coração, como se fosse uma delicada mas persistente oração, a pedir para Deus que me mantenha consciente de que a vida, a vida tem uma só urgência verdadeira: a urgência de ser vivida.
 

Agente ou reagente?

 

Na maioria das vezes, uma pessoa só pode nos fazer mal se permitirmos que ela nos afete. Quando a gente reage a uma provocação ou agressão, significa que se deixou atingir. E isso a ponto de processar seus efeitos e gerar uma resposta, inda que apenas íntima e silenciosa. Por outro lado, se a gente desenvolve maturidade para desprezar o mal, ele simplesmente permanece onde está – ou seja, na pessoa que o criou. E ali, somente ali, fará estragos.
 
Certa vez, li a narrativa de um homem que acompanhou um amigo, num domingo pela manhã, até a banca de jornal.
 
O jornaleiro, rude e mal-educado, chegou a ser ofensivo com seu péssimo atendimento. Mas o amigo dele manteve sua cordialidade natural e nem fez conta da grosseria. Enquanto iam embora, o homem não se conteve e questionou:
 
– Por que você foi tão amável com um sujeito tão estúpido?
 
A resposta saiu simples e serena:
 
– Porque eu não quero que alguém como ele determine como devo agir.
 
Quanto a nossa vida poderia avançar, se fossemos menos reagentes aos outros e mais, muito mais, agentes das nossas próprias escolhas?